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Memórias de estudante

Ouvir. Prestar atenção. Interessar-se. Isso já faz com que o professor se solidifique na memória de um aluno. Nada demais, nada que exija títulos acadêmicos ou grande reputação. Só precisa enxergar o aluno. Vê-lo e entendê-lo. E professores assim passaram por minha vida escolar. A memória mais remota de sala de aula não está no lápis, na farda e no caderno. O que ficou foi a imagem da professora que, naquele período, início de tudo, era a pró. Alfabetização, a aula acontecendo e o colega ao lado chorando. Derramando pelos olhos a tristeza de não poder ver mais o avô. E a pró parou de falar sobre as vogais e, olhando para cada pequeno, disse “Nós nascemos, crescemos e morremos. Lembram dos animais que pintamos ontem? O sapo, o leão... Todos vão morrer um dia, assim como a gente.” A professora conseguiu acalmar o colega e o desconforto dos outros, assustados com a situação. Ela nos fez entender como acontece e o que é a morte. O mau professor talvez o mandaria para a direção. Ele ent...

Riachão, o malandro pop da Bahia

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Em entrevista com Riachão, na Praça 2 de Julho, no Campo Grande. “O samba pra mim é Deus. Deus é a música e a música é o samba.”, é o que ele acredita .

Sidney Carvalho: em cada samba, um enredo...

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Ele é filho das escolas de samba que desfilavam pelo centro de Salvador, anos atrás. Duas delas, Cacique do Garcia e Grande Família , que saíam do bairro do Garcia, local onde nasceu e vive até hoje, fizeram parte de sua infância, assim como da de muitos soteropolitanos que viveram carnavais com samba-enredo, famílias reunidas, mascarados nas ruas, carros alegóricos… Tradição. E ele estava lá, acompanhando tudo de perto com o seu tio, que era presidente de escola de samba, cargo de muitas responsabilidades e fonte de muitas alegrias também. Por isso tudo, ele cresceu e tornou-se um compositor de sambas. Sambas-canções e sambas-enredos que falam sobre as memórias de tempos bons que marcaram a sua vida. “Só escrevo sobre boas lembranças. As ruins eu não guardo pra mim”, esclarece Sidney Carvalho, 40 anos, dono de uma simpatia contagiante, a qual lhe confere muitos amigos por onde passa. O corpo grande, mãos fortes, voz firme, com timbre alto e imponente contradizem com a delicadeza que ...

Infinito

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Uma chance

Novo. Tudo era novo naquele tempo. A sua idade e o que vinha pela frente. Outro país, novas pessoas ao redor, outra língua, outra cultura, outro mundo. Apesar da novidade optou por registrar a sua presença naquele país em formato de antiguidade. Cartola, bengala, e a imagem em cor de sépia. Tinha 15 anos, mas com alma de lord . Lord dos filmes antigos, em preto e branco, trilha sonora especial, diálogos bem trabalhados. Queria registrar a novidade ali presente na sua vida, também numa roupagem diferente, talvez vestido como sempre quis, mas nunca pode. Afinal tinha 15 anos, vivia no Brasil, e não em um filme antigo. Estava feliz, realizado. No lugar que sempre sonhava estar e vestido como sempre quis estar vestido. Os seus desejos estavam se realizando. Desejo de adolescente, mas que marcou a sua vida. Hoje adulto, ainda guarda a foto que registrou, talvez, o seu verdadeiro eu. Um lord, de cartola e bengala, rodeado de lembranças.

Lentes de dentro

O sol estava aceso. Quente. Mas a sensação térmica era outra. Um pouco fria. Muito burburinho. Cafés, talheres, risadas. Mas o som do violino era o protagonista. O homem grisalho, nariz grande e irradiando simpatia, prendia a minha atenção. Nas mãos dele um violino. Instrumento hipnotizador do seu trabalho. Quando viajamos, as cenas passam a ter mais valor. Passam a simbolizar tudo que desejamos e temos de bom dentro da gente. Se temos uma saudade, certamente encontraremos algo ou alguém por onde passamos, que nos faça lembrar dela. Se desejamos paz ou descanso interior, selecionamos o que vai nos trazer o que queremos. Tudo fica mais proeminente. Como uma tela em alto relevo. O violino, por exemplo, ou melhor, o homem grisalho e o violino. Dupla perfeita. Embora estejamos afastados, sentados em cadeiras com amigos, conversando, o som do violino se destaca. Como na foto, o homem e o violino em primeiro plano, e a mulher, de óculos, com expressão de falante, no fundo. Talvez, na realida...

Riachão, o malandro pop da Bahia

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Limpou as mãos na bermuda e as ofereceu para mim, para um aperto de mão. Estendi as minhas. Acabava de conhecer Clementino. Riachão desabrocharia mais tarde.

Teorias literárias

A vida das gentes neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de PiScAdAs. Cada PiScO é um dia. PiScA e mama; PiScA e anda; PiScA e brinca; PiScA e estuda; PiScA e ama; PiScA e cria filhos; PiScA e geme os reumatismos; Por fim PiSCa pela última vez e morre . - E depois que morre? - perguntou o Visconde. - Depois que morre, vira hipótese. É OU NÃO É? Monteiro Lobato.

Porque eu escrevo ou Ensaio sobre mim mesma

Escrever é mesclar criatividade e os sentidos. Todos. Os do corpo físico e de alma... Por isso às vezes credito à minha facilidade , e mais ainda, à vontade de escrever, ao que cultivei e ao que cultivaram em mim. Das cores das tintas pinceladas nos quadros que minha mãe sempre pintou, dos livros coloridos que grudavam em mim, enquanto outras crianças carregavam, a tira colo, ursos de pelúcia, barbies ou minivideogames, eu devo ter sugado criatividade. Os sentidos se desenvolveram, talvez, pela insegurança que carrego, agora em menor proporção. Sentir o que o outro transmite, além de captar o cheiro, o gosto, as cenas e a textura do que me cerca, seja de objetos ou de pessoas, me faz mais segura. Me permite saber por onde e com quem convivo. Essa talvez seja a explicação para o tipo de linguagem que utilizo. Agora o porque que eu escrevo, ainda não consegui compreender. Talvez eu queira mostrar a minha arte, escondida atrás da caneta, do papel, do computador. Afinal, nem sempre os outr...

2º Criatividade na Cor, com Walter Firmo

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Workshop do Instituto Casa da Photographia traz para Salvador um dos maiores fotógrafos coloristas do Brasil De 31 de janeiro a 4 de fevereiro, o fotógrafo carioca Walter Firmo, chega a terras baianas para ministrar a 2ª edição do workshop Criatividade na Cor , realizado pelo Instituto Casa da Photographia. Como sugere o nome, o workshop incentiva a criatividade e o exercício do olhar fotográfico do participante quando propõe a valorização da expressividade junto a utilização das cores para a composição da imagem. As aulas serão teóricas, com projeções de trabalhos de fotógrafos brasileiros e estrangeiros, comentadas e analisadas por Firmo, um dos maiores fotógrafos coloristas do país, além de saída fotográfica em grupo, no dia 2 de fevereiro, data da tradicional Festa de Iemanjá, no Rio Vermelho, sob a coordenação do fotógrafo convidado. Para o encerramento do workshop, cada participante deverá apresentar o material produzido durante a saída fotográfica, que será avaliado por Walt...

A minha coragem

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Era um caminho longo, ruas paralelas, movimento de pessoas de todos os tipos. Terno, calça desgastada, salto alto, tênis e chapéu à la Robin Hood passavam a todo instante. Cada um no seu mundo. Eu andava, dona de mim, certa de meus passos e por onde percorrer. Sentia meu corpo menor do que tudo ao meu redor, mas o melhor era sentir meu corpo pequeno, vencendo aquele caminho tão complicado. A minha fragilidade se dissolve em momentos como esses. Quando eu dependo de mim. A coragem e o orgulho de mim mesma também se fazem presentes quando trabalho. Enquanto escrevo, sentindo a mim, o meu personagem e a história dele e a minha que, no momento do encontro, se confundem. Me orgulho de enfrentar aquele caminho tão longo, de prédios e pessoas maiores do que eu. Tão diferentes de mim. O texto pronto e o caminho vencido são a minha coragem. A pessoa que me orgulho de ser. Aparentemente frágil e maior do que meus desafios.

Cores e imaginação

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A televisão era uma janela para um mundo de cores. Cores que eu mesma escolhia. Enquanto um cavalo de crina vermelha e corpo lilás voava de um plano a outro, através de um arco-íris, eu assistia a essa cena, deitada e muito confortável. Essa imagem provocava em mim uma vontade de criar, de colorir a vida, de fazer o meu próprio mundo. Nada me fazia mais feliz do que acompanhar o cavalo mágico, com lápis de cores, hidrocôs e papéis em branco ao meu redor. Era o meu momento, onde eu era a rainha e o meu cavalo só falava inglês.

Como esquecer um grande amor

* Anna Bárbara de Sá Nestes novos tempos, em que as famílias se diminuem e que a saudade tornou-se regra, virou moda o medo da solidão. De qualquer solidão. Ninguém mais quer estar sozinho, sempre transferindo a mágica porção da felicidade ao outro. Por vezes estive só, mesmo que acompanhada. Não foi nada além de boas tardes. E hoje, neste instante, em que não sinto nada passional, tenho a ligeira impressão de que reconheço a integridade. A minha integridade. Esqueçam essa tal dor de amor que lhes arrebata o peito. Vou-lhes contar um segredo, vocês não precisam de ninguém, ninguém nasce ao meio. Uma dica: parem de procurar pela ilusória metade perdida, e se olhem no espelho. Ainda assim, sempre penso que nós precisamos dos outros (de todos). Nós não somos sozinhos. Nós não somos completos.

Entre a Maré e o Dendê

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De 27 de novembro de 2010 a 12 de março de 2011, Maragojipe (a 133 km de Salvador), recebe a exposição Entre a Maré e o Dendê do fotógrafo Tito Casal, com curadoria do fotógrafo Marcelo Reis. A exposição, que será realizada no Centro de Abastecimento Iguatemi, localizada no centro da cidade, foi contemplada pelo edital Matilde Matos - Apoio a Curadoria e Montagem de Exposições no Estado da Bahia, da Fundação Cultural do Estado (Funceb) em parceria com Fundo de Cultura da Bahia, e recebe o apoio da Prefeitura Municipal de Maragojipe e da Associação de Pescadores e Moradores do Angolá (AMAN). A abertura da exposição, que acontece no mês da Consciência Negra para revelar, através da arte visual, a importância dos negros na manutenção das atividades pesqueiras no Recôncavo, vai contar com uma programação cultural incluindo apresentação de grupos da região maragojipana: Origens Africanas (capoeira), Só pra Agradar (samba de roda), apresentação do grupo de dança e teatro comunitário de C...

Voto popular para assuntos do povo

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Começou ontem (1º) e vai até o dia 7 deste mês, o Plebiscito Popular pelo Limite da Propriedade de Terra, organizado pelo Fórum Nacional pela Reforma Agrária. O plebiscito consiste em decidir, de forma democrática, se os latifúndios (propriedades agrárias privadas) devem ter um limite máximo de extensão ou não. Essa ação faz parte da antiga e sempre atual discussão sobre a reforma agrária que, para muitos estudiosos, resolveria grande parte dos problemas sociais do país. Na próxima sexta-feira (3), será realizado na Praça da Piedade, centro de Salvador, um ato de divulgação do plebiscito, organizado pela Coordenação Estadual do Grito dos Excluídos e pela Campanha Nacional pelo Limite da Propriedade de Terra. Estão previstas várias atividades e apresentações ao longo do dia e a possibilidade de votar nas urnas do plebiscito. De acordo com os organizadores, após a realização da consulta pública, uma emenda popular de limitação para a propriedade da terra no Brasil, que também está sendo ...

Apenas (e basta!) Bahia

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Em Saubara - Ba A Benção, Bahia (Vinícius de Moraes e Toquinho) Olorô, Bahia Nós viemos pedir sua bênção, saravá! Hepa hê, meu guia Nós viemos dormir no colinho de lemanjá! Nanã Borokô fazer um Bulandê Efó, caruru e aluá Pimenta bastante pra fazer sofrer Bastante mulata para amar Fazer juntó Meu guia, hê Seu guia, hê Bahia! Saravá, senhora Nossa mãe foi-se embora pra sempre do Afojá A rainha agora É Oxum, é a mãe Menininha do Gantois Pedir à mãe Olga do Alakêto, hê Chamar Inhansã para dançar Xangô, rei Xangô, Kabueci-elê Meu pai! Oxalá, hepa babá! A bênção, mãe Senhora mãe Menina mãe Rainha! Olorô, Bahia Nós viemos pedir sua bênção, saravá! Hepa hê, meu guia Nós viemos dormir no colinho de lemanjá!

Felipe Mago e Zé da Mala em "Quando o teatro é verdade..."

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Felipe Mago e Zé da Mala. Um é trovão, o outro brisa. Mago chama as pessoas no ato, cara a cara, Zé da Mala envolve o público com a delicadeza e o encanto das palavras que pronuncia com tanta candura. Tão diferentes, trabalham juntos e falam a mesma língua: a do teatro de rua. As personalidades dos personagens parecem se confundir com as dos atores. Felipe é Felipe mesmo, 24 anos, firme na voz, olhar vibrante e muita lenha queimando dentro de si. Zé da Mala é Gabriel Bandarra, 21 anos, do tipo cavalheiro, cortês, tranqüilo no olhar e na voz . A dupla de amigos trabalha com o gênero de teatro mais antigo da história. Aliás, o teatro nasceu mesmo foi nas ruas, mas isso é outra história... Os dois se apresentam nos ônibus (geralmente as linhas que cortam Costa Azul e Ondina), largos, bares (principalmente no Rio Vermelho), faculdades, centros de cultura, pontos turísticos e onde mais precisar de arte em Salvador e adjacências. Felipe Mago, vestido de roupa imperial (o rei da inquietud...

Sentar e ver. Só ver.

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Antíteses

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Pequeno com atitude de grande. Franzino, mas com olhar forte, robusto, provocante. Marquinhos, menino de seis anos, é filho da "moça que cuida do banheiro", como ele mesmo informa, quando pergunto-lhe quem é a sua mãe. Afinal, estranhei ao vê-lo sozinho, naquele lugar tão movimentado. Um formigueiro, onde marchavam milhares de velas acesas, em direção ao monumento que retratava, em tamanho descomunal, o Padre Cícero. "Padim Padi Ciço", como a maioria ali se referia ao líder religioso que habitou Juazeiro do Norte, na quente e rica Ceará. Marquinhos tinha uma função. Ficar por ali, a espera dos romeiros que, talvez, lhe dariam algumas moedas. Ou não. Tão pequeno e com a responsabilidade de garantir, nem que seja, em pouca quantidade, dinheiro que se transformaria, ao juntar-se com o que sua mãe contraísse no trabalho, no jantar dele e do seu irmão. Marquinhos exibia uma expressão muito atraente. Atraente, principalmente, para a lente da minha máquina fotográfica. A f...

Fluxo de memória

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*Imagem: Heitor dos Prazeres. A casa era pequena, mas só fisicamente. A cada momento chegavam mais pessoas e, todos cabiam confortavelmente. Inexplicável. Era noite de música por lá e, mesmo sabendo disso, a festa me surpreendeu. Não esperava toda aquela movimentação. A casa é um bar alternativo, localizado em um dos bairros mais boêmios de Salvador: o Rio Vermelho. O nome? Casa da Mãe. Nada mais coerente do que Casa da Mãe para ser o nome daquele lugar tão pequeno, mas que, sem esforço algum, conseguia acolher todos que chegavam. Como coração de mãe. Sempre cabe mais um. Dividida em ambientes, a Casa da Mãe aposta na arquitetura e decoração simples. Sem luxo algum. Era noite de sarau. Artistas baianos, a maioria esquecida pela grande mídia, se encontravam ali, e, sem ensaio, cantavam e tocavam músicas aleatórias. Aleatórias, será? Tinha muita emoção nas vozes. Dor. Solidão. Tristeza. Beleza. Isso tudo aparecia no momento em que cantavam Dalva de Oliveira. "Ai ioiô, eu nasci pra ...