quarta-feira, março 22, 2017

Minha face de molho

Penteio os cabelos para ver se o tempo passa. Para ver se me sinto diferente, ativa, diferente da pessoa que acordou às 6h da manhã. Antes dos tempos livres eu pensei... vou fazer muitas coisas interessantes. Terei tempo, terei uma casa em silêncio, terei inspiração. Vou ouvir os discos, na vitrola que agora funciona. Mas os discos estão arranhados, sujos e parados no tempo. Não dá.Terei tudo. Mas ainda procuro. Vem em minha cabeça, nas minhas memórias, na minha vontade sincera de fazer, de agir. Mas vou até um limite. Peguei um livro pra ler, logo nas primeiras horas do dia. Hoje será melhor. Hoje serei mais produtiva. Hoje não serei telespectadora, de filme bobo, de filme bom. Da globo, dos jornais locais, que na verdade não são diferentes. Todos iguais. Todos os dias. Agora escrevo, e tento não ler para não me bloquear. Ouço Caetano Veloso, o disco Transa dele que sempre me inspirou coisas diferentes, coisas criativas, coisas marginais, coisas extraterrestres do senso comum. Enfim. Hoje eu acordei meio culpada de não estar aproveitando os dias de molho. Sim, de certa forma tirei minha face e coloquei de molho até ela ficar novinha em folha e tomar uma nova forma, uma forma que era para ter sido minha, mas não foi. Vai saber porque... são tantas as teorias. Já ouvi muitas explicações, entendi parte delas, outras achei dignas, interessantes. Mas na verdade, lá no fundo mesmo, não me importa o porque da minha forma original não ter vindo comigo de imediato. Isso nunca foi uma questão pra mim. Porque na verdade ninguém vem com essa forma. E mesmo que venha, sempre tem alguém insatisfeita com ela. O ser humano é inquieto demais pra se aceitar durante uma vida inteira, mesmo sendo esta vida curta ou longa. Sinto que se eu parar agora de escrever, vou voltar para a estaca a zero. Quero exigir mais de mim. Eu posso mais, eu sei. Ou não. Ou eu já fiz e não enxerguei. 

Um comentário:

Camila Vasconcelos disse...

Acho importante esse "nada fazer". É quase tudo, e de nada não tem nada.

Penso assim: https://camilavasconcelos.wordpress.com/2011/08/14/nitidez-do-comum/

Beijinho. Adoro "ler você".