segunda-feira, novembro 13, 2017

Tom Barreto, novo fôlego para a roda de samba da Bahia

Foto: Marcelo Reis.
Pelourinho, manhã de primavera. O vento chamava a atenção por ali, principalmente das mulheres que passavam, com as saias esvoaçantes. O dia estava acelerando seu ritmo. Caminhões de cerveja reabasteciam os bares e restaurantes. O barulho rouco dos motores e o tilintar das garrafas balançando nos engradados, dominavam o ambiente. Os sons se confundiam. Mas ai chega ele, bonito, sorridente e transbordando de histórias para contar, acompanhado de sua esposa, tão interessante quanto. A agonia sonora se transformou em um ruido bem distante, agora nós éramos os protagonistas. Sentados nas cadeiras de ferro da Cantina da Lua, estilizadas e desgastadas pelo tempo, onde já sentaram tantos artistas consagrados da Bahia, conversamos sobre destino, tradições, música, encontros e sentimentos.
Estávamos no mesmo local onde os pais do samba baiano, Batatinha, Riachão, Ederaldo Gentil e outros tantos artistas, se reuniam… Não tinha lugar melhor para iniciarmos uma história assim. Uma história de um artista que também se inicia na música popular. Ali, ele estava acolhido. Ele, Tom Barreto, é cantor e compositor de samba de roda, de côco, de ciranda, do carimbó e de outros ritmos que brotam todos os dias na lida das marisqueiras e dos pescadores de Salinas das Margaridas, no Recôncavo da Bahia. Prisioneiro da música de raiz. Prisioneiro feliz. Realizado.
Tom, soteropolitano, batizado pelos pais de Odé Nilton, (Odé, nome do orixá da caça, das matas e florestas) não tem uma trajetória musical comum. Dele não ouvi que o canto o acompanha desde pequeno, ou que já escutava música em casa, com a família… Ele nasceu e cresceu sem referências artísticas ou musicais. Aos nove anos, morador da Estrada Velha do Aeroporto, acordava às 4h, para não perder o ônibus em direção ao Pelourinho. Entregava jornal entre as ruelas de arquitetura colonial, e com isso conseguia uma quantia para satisfazer as suas vontades de criança. Foi como todo menino do Pelô, como diz a música.
Mais velho, morou em terras cariocas, trabalhando como cabeleireiro. Profissão que o levou para fora do país, para fazer cursos de especialização na área. Mas não se sentia à vontade.  Ainda não tinha se encontrado no espaço e no tempo em que vivia. Acreditando que precisava cuidar de si mesmo, da sua “espiritualidade”, como ele diz, Tom voltou para Salvador. Seguiu seu destino, sem olhar para trás. A essa volta ele credita a fé que começava a aflorar.  A fé religiosa, já que, segundo ele, foi “escolhido” pelo seu orixá, e hoje é de Ketu (maior e mais popular nação do Candomblé) e a admiração pela fé do povo ribeirinho do Recôncavo, que conheceu por acaso e se transformou na sua inspiração, matéria prima para a música que faz. “Hoje em dia eu tenho um trabalho muito direcionado para a população ribeirinha, que vive à margem do Paraguaçu, e, para mim, a força que as marisqueiras e os pescadores têm, simboliza a fé. A fé de acreditar que vai conseguir criar seus filhos, que vai conseguir ter saúde, que vai conseguir botar o alimento dentro de casa. É uma vida muito “puxada” e, no entanto se consegue viver bem. Há uma certa qualidade de vida e eu acho que a fé é que faz essas coisas acontecerem.”, explica o músico.
As composições de Tom Barreto nada mais são, e por isso que são tão ricas, um espelho ou a tradução do cotidiano daquela população, que conheceu enquanto buscava se fortalecer espiritualmente. Queria morar em um lugar onde a natureza fosse muito marcante, e ao deparar-se com o mar azul rodeado pelos coqueirais, fincou sua bandeira. A primeira parada foi há oito anos, na zona rural de Muritiba, onde teve o primeiro contato com os cânticos populares da região. Ali começava a adquirir as tais referências musicais que todo artista precisa para construir seu trabalho. Mudou-se para Salinas das Margaridas, casou-se, e continuou apostando na sua arte. “Quando eu vejo os coqueirais, ou quando eu chego na beira da maré, escrever uma música é a única vontade que sinto. Enquanto eu não faço isso, não fico em paz. É a forma que tenho de transpor a minha emoção, a minha admiração pelo que vejo. O sentimento é tão forte, que ele só escorre pra música. Meu coração é completamente independente”, brinca.
Tão forte quanto o seu sentimento é a sua voz, de timbre alto e original. De acordo com Jota Velloso, um canto agreste, no melhor sentido da palavra. É um canto rústico, totalmente afinado com as raízes musicais que escolheu, e por isso interpreta com muita propriedade e verdade a cultura de beira de maré. “Quando eu conheci as pessoas e as músicas que elas cantavam nas festas de candomblé, eu sentia que aquilo tudo já era meu, que eu já fazia parte daquele mundo”, relembra. Antes de chegar nas margens do rio Paraguaçu, Tom não sabia nada sobre ele mesmo… Não sabia da voz que tinha, da sensibilidade que, até hoje, vem à tona, da familiaridade com o violão… Foi uma descoberta. Ele se conheceu e gostou do que viu. “Eu comecei a estudar sozinho. Em casa, aprendi a tocar violão e a cantar. Tentei entrar em algumas escolas, mas não conseguia assimilar o que o professor dizia. Então eu parti pra prática, a cantar nas rodas de samba.”, conta.
A primeira música que compôs foi Amor de mãe. E foi com ela, que Tom Barreto passou a acreditar que o que estava desenvolvendo naturalmente nele, era arte. Passou a fazer shows na região, em pousada e em festivais locais. Quando gravou seu primeiro demo, distribuiu para as suas divas inspiradoras: as marisqueiras! Crítica mais competente não poderia existir. Hoje, Tom Barreto e a música andam de mãos dadas. Canta e escreve sobre a terra que sempre foi sua, embora não tivesse nascido por lá. A etapa da descoberta já foi cumprida e agora chegou o momento de se exibir, como todo bom artista gosta de fazer. Melhor ainda quando tem para exibir a arte verdadeira, que vem de dentro, sem embalagem. E o palco é o lugar ideal para isso.

Nas vindas para Salvador, Tom já fez participações importantes em shows do grupo Barlavento, que gravou a música Marisqueira, de composição sua, e nos shows do cantor Toti Gira. Já passou pelos saraus da Casa da Mãe, bar do Rio Vermelho que vem reunindo artistas baianos emergentes e de tradição. Agora, o que precisa é de um produtor, que entenda a sua arte, divulgue seu trabalho e chegue para complementar o seu projeto de vida e de profissão, que é ressaltar a beleza da população ribeirinha e renovar o repertório da música de raízes africanas que tanto alegra e abrilhanta nosso povo. “A minha necessidade hoje é de mostrar o meu trabalho. O artista é exibido por natureza. Se eu não cantar, é o mesmo de eu não poder respirar”, revela.





quinta-feira, junho 15, 2017

A insustentável explosão, o samba

(Foto: Reprodução/ Karilayn Areias)


O samba é a crônica das ruas. O samba é a crônica dos homens, das mulheres, dos amores, das dores, da vida. As letras dos sambas são para ouvir e entender as contradições de existir, de sambar a tristeza como se samba a alegria. A emoção é a mesma. Transborda da mesma forma, escorre pelo corpo com a mesma cadência, com o mesmo suor. O samba emociona o mais frio dos corações. Os corações só são frios quando não conhecem o samba. O frio derrete diante o calor do samba. Eu, por sua vez, torno-me inteira, completa. Explosão ao ser vista, ao ser samba, ao ser roda de samba. Grito com os pés, com o quadril, com as mãos, com o peito tão aberto quanto os braços que balançam ao som do samba. A cuíca é o choro. O pandeiro é a força, a energia. A marcação é as batidas do coração, o tamborim é o tempo. O mesmo tempo que dura a alegria, a contagem regressiva para a felicidade eterna.

quarta-feira, março 22, 2017

Minha face de molho

Penteio os cabelos para ver se o tempo passa. Para ver se me sinto diferente, ativa, diferente da pessoa que acordou às 6h da manhã. Antes dos tempos livres eu pensei... vou fazer muitas coisas interessantes. Terei tempo, terei uma casa em silêncio, terei inspiração. Vou ouvir os discos, na vitrola que agora funciona. Mas os discos estão arranhados, sujos e parados no tempo. Não dá.Terei tudo. Mas ainda procuro. Vem em minha cabeça, nas minhas memórias, na minha vontade sincera de fazer, de agir. Mas vou até um limite. Peguei um livro pra ler, logo nas primeiras horas do dia. Hoje será melhor. Hoje serei mais produtiva. Hoje não serei telespectadora, de filme bobo, de filme bom. Da globo, dos jornais locais, que na verdade não são diferentes. Todos iguais. Todos os dias. Agora escrevo, e tento não ler para não me bloquear. Ouço Caetano Veloso, o disco Transa dele que sempre me inspirou coisas diferentes, coisas criativas, coisas marginais, coisas extraterrestres do senso comum. Enfim. Hoje eu acordei meio culpada de não estar aproveitando os dias de molho. Sim, de certa forma tirei minha face e coloquei de molho até ela ficar novinha em folha e tomar uma nova forma, uma forma que era para ter sido minha, mas não foi. Vai saber porque... são tantas as teorias. Já ouvi muitas explicações, entendi parte delas, outras achei dignas, interessantes. Mas na verdade, lá no fundo mesmo, não me importa o porque da minha forma original não ter vindo comigo de imediato. Isso nunca foi uma questão pra mim. Porque na verdade ninguém vem com essa forma. E mesmo que venha, sempre tem alguém insatisfeita com ela. O ser humano é inquieto demais pra se aceitar durante uma vida inteira, mesmo sendo esta vida curta ou longa. Sinto que se eu parar agora de escrever, vou voltar para a estaca a zero. Quero exigir mais de mim. Eu posso mais, eu sei. Ou não. Ou eu já fiz e não enxerguei. 

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

A reconexão comigo

Na varanda perto do rio tinha uma rede convidativa para leitura. Olho, procuro um livro, encontro Manoel de Barros e sua infância. Lendo, volto a sentir tudo de novo. A minha paixão por escrever, a minha paixão pelo Jornalismo Literário. A minha paixão pela infância. Recupero todo o meu fôlego.

- Obrigada Manoel de Barros, prazer em te conhecer.
-Minha filha, estou aqui. Usufrua de tudo que quiser.

A natureza é livre. Ela era a vida de Manoel de Barros, pelo menos onde o homem e o escritor começaram a nascer. Isso me emociona. Adoro saber como a semente foi plantada e como ela se desenvolveu.

Ler seus textos me reconectou com a escrita, com a sensibilidade. Ela estava morna, precisando de um combustível. O rio que eu via da varanda era o rio que Manoel conheceu? Pode ser, não sei. Que lindo ele valorizar essa experiência tão simples de criança, de brincar com a lagarta, com o rio, com as pedras. Que lindo ele pensar que essas brincadeiras que o construíram.

Acho que aconteceu isso comigo também. Talvez não a mesma conexão que ele teve com a natureza. Acho que minha natureza foi outra, os desenhos que ilustravam os livros que eu lia, o lápis novo, o caderno. Bom, acho que me perdi um pouco.

- Então, Manoel de Barros, estou te conhecendo agora e você já me tocou dessa forma?! 

Foi um encontro lindo, que talvez estava escrito. Eu estava me distanciando um pouco da escrita sobre histórias de vida, mas ao ler Memórias Inventadas eu me reconectei. Muito obrigada aos donos da casa por terem deixado ali, aquele livro exposto. Esse fôlego foi retomado.

Manoel de Barros ainda não é íntimo da minha consciência, mas já cumpriu um papel muito importante em minha vida.

segunda-feira, outubro 05, 2015

Tributo a Luiz Gonzaga acontece neste sábado no Bukowski Porão Bar

Na programação, exibição de entrevista de 1972, discotecagem, cordel e tributo a Gonzaga com banda Confusão, das 16h às 22h, a R$ 5. 




Para os admiradores da obra de Luiz Gonzaga, a banda Confusão fará um show de homenagem ao rei do baião neste sábado (10). O evento acontece de 16h às 22h, no Bukowski Porão Bar, ao lado da Escadaria do Passo, no Santo Antônio Além do Carmo, com bilheteria a R$ 5. 

A banda Confusão surgiu em Salvador, no bairro de São Caetano, em 2003 com a proposta de uma musicalidade sem fronteiras de ritmos. A forte influência da banda vem do Rock'n'Roll e da musicalidade regional e universal, procurando resgatar a música de raiz nordestina e misturar com a música contemporânea urbana. Elementos do teatro, poesia e artes plásticas estão sempre presentes nas suas apresentações.

Banda Confusão


Além do show de tributo, o evento terá na programação exibição de vídeo com entrevista de 1972, com Gonzaguinha entrevistando Luiz Gonzaga, discotecagem, com músicas do cancioneiro popular brasileiro, incluindo artistas da nova geração comandada por Didoné e recital de poesias e literatura de cordel, com o poeta e cordelista Alberto Lima. 

A homenagem a Luiz Gonzaga será a segunda edição do projeto "Tributos à Música Brasileira", idealizado e produzido pela jornalista Flavia Vasconcelos, que iniciou relembrando os clássicos do inesquecível Tim Maia, com a banda Conexão Ganza, de Salvador. A proposta é trazer à tona a obra de artistas brasileiros que fizeram história e marcaram a vida das pessoas, valorizando assim a música brasileira.

Serviço:

Tributo a Luiz Gonzaga

Sábado, 10/10, das 16h às 22h

Local: Bukowski Porão Bar - Rua do Passo, nº 37, Santo Antônio Além do Carmo (ao lado da Escadaria do Passo)

Bilheteria: R$ 5

segunda-feira, julho 27, 2015

Grupo de Teatro A Pombagem leva espetáculo "Que é isto, moço?" para ruas da periferia



O grupo de teatro de rua A Pombagem está ampliando a Semana de Arte, Teatro e Educação, que no primeiro momento se configurou ao período de 20 a 24 de julho em 5 escolas públicas da cidade do Salvador. 

Mas, pensando nas ruas da periferia, a trupe levará o espetáculo "Que é isto, Moço?" – baseado em poesias de Elisa Lucinda e Alice Ruiz - aos bairros de Narandiba, Cajazeiras, Liberdade, Fazenda Grande do Retiro e São Caetano na semana de 27 a 31 do mesmo mês. 



A culminância da atividade ocorrerá no 2 de agosto, um mês após o cortejo da Independência, quando a museóloga Manuela Ribeiro, que é integrante da Pombagem, falará sobre "a Mulher e o 2 de julho no contexto dos monumentos históricos", numa aula campal, ao chafariz da cabocla na Praça dos Aflitos.

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

Bloco d’A Pombagem promove Carnaval cultural na Fazenda Grande do Retiro



O Bloco d'A Pombagem sai em cortejo no domingo de Carnaval, dia 15, a partir das 13h, pelas ruas da Fazenda Grande do Retiro, partindo do Ponto Farol, em direção à Praça de Catulo da Paixão Cearense. Marchinhas, bailinhos, bandinhas, manifestações culturais como capoeira, malabares, bonecões, pernas de paus, palhaçaria e muita poesia em prol da paz nas comunidades da cidade animarão o bairro.

Idealizado pelo coletivo Arte Marginal Salvador e apoiado por agitadores culturais envolvidos com as artes e a educação, sobretudo com a pedagogia das crianças, o bloco também promoverá uma aula campal sobre o poeta Catulo da Paixão Cearense, que dá nome à praça, para alunos das escolas do bairro.

Serviço:

O que: Cortejo do Bloco d’A Pombagem

Quando: Domingo (15), a partir das 13h

Onde: Do Ponto Farol em direção à Praça de Catulo da Paixão Cearense – Fazenda Grande do Retiro

Quanto: Gratuito